Domingo, 19 Março 2017 00:30

Freud - Totem e Tabu

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Bom dia, hoje trago uma pequena resenha sobre o livro de Sigmund Freud, Totem e Tabu. Não procuro realizar um discurso crítico - como todas as "resenhas" que faço aqui no Blog -, buscarei apenas passar para vocês as minhas impressões sobre o livro e um pouco de seu conteúdo, onde detalharei e explicarei alguns dos conceitos freudianos desse grandioso livro.

 

Autor: Sigmund Freud.

Título: Totem e Tabu - Algumas concordâncias entre a vida psíquica dos homens primitivos e a dos neuróticos.

Título Original: Totem und Tabu Über einige Übereinstimmungen im Seelenleben derWilden und Der Neurotiker.

Ano de Publicação: 2015.

Capa: Warrakloureiro.

Editora: Penguin e Companhia das Letras .

 

 Em Totem e Tabu, Freud faz uma enorme colaboração para com a antropologia social. Nesse livro podemos ver uma reflexão sobre os primórdios da civilização e como isso foi fundamental para a construção do Complexo de Édipo. Retrata, ainda, sobre o mito da horda primeva e da morte do pai totêmico que fomentará hipóteses da origem das instituições culturais e sociais, e, indo além, desenvolve a construção da religião e da moralidade na sociedade. Os dois temas principais que fornecem o título do livro, o totem e o tabu, não são nele tratados da mesma forma. A análise do tabu aparece como tentativa segura e exaustiva de solução do problema. Já a análise sobre o totemismo limita-se a declarar que "é isto o que a observação psicanalítica pode contribuir, no momento, para esclarecer a questão do totem".

Há quatro capítulos cujo próprio título demonstra a preocupação referida, são eles: O Horror ao Incesto; O Tabu e a Ambivalência dos Sentimentos; Animismo, Magia e Onipotência de Pensamentos; O Retorno do Totemismo na Infância. Posteriormente abordarei e explicarei o conteúdo de cada um deles, mas antes quero explicar de forma geral o conteúdo desse livro:

 

 Podemos ver a preocupação de Freud em compreender a passagem do clã totêmico para a família. Ele escolhe tribos onde instituições religiosas ou socais eram inexistentes, logo a observância de um sistema de totemismo seria evidente. Tal observação é, ao longo do livro, discutida e elucidada. As tribos teriam como característica particular e , em comum, a exogamia (Proibição do casamento, relação sexual, entre membros do mesmo grupo, ou clã) e por conta disso a proibição do incesto está intrínseca ao clã - "Certamente não esperaremos que esses pobres canibais nus observem uma moral como a nossa em sua vida sexual, que tenham imposto a seus instintos sexuais um alto grau de limitação. Sabemos, no entanto, que estabeleceram por meta, com enorme cuidado e penosa severidade, o impedimento de relações sexuais incestuosas".

 Freud abre um leque de questionamentos e reflexões quando diz que a proibição do incesto está intimamente ligada ao desejo de comete-lo - lembro que estamos nos primórdios da civilização -, o que começaria a moldar o Complexo de Édipo da nossa psique, hoje. Cabe aqui recordar do subtítulo do livro, Freud busca uma relação entre a vida psíquica dos primitivos e dos neuróticos, onde este último confrontado com o desejo de transgredir um tabu original (ligado a um recalcamento) fará o que Freud chama de "deslocamento de tabu" para um outro objeto. Aqui o tabu é definido como algo sagrado e, ao mesmo tempo, profano.

Se há uma ambivalência nos tabus é porque ela se manifesta como uma proibição de algo desejado (desejo inconsciente dos primitivos, como nos neuróticos), então a violação do mesmo precisa ser vingada - caso contrário os demais despertariam o intento igual do transgressor.

Resumindo: o caos estaria instalado no clã, ou, na vida psíquica que impõe uma punição.

Tabu: Possui dois sentidos contraditórios (como dito acima): um desses sentidos refere-se ao lado "sagrado" do tabu e o outro sentido está ligado ao "proibido" e "ameaçador". Ambos advertem uma consequência caso sua transgressão seja consumada e tal proibição assim como sua consequência independem de proibições morais, religiosas ou um desejo divino. A origem do tabu é imposta por si só e sua origem é desconhecida. O tabu protege o totem.

Característica do Tabu: Freud apresenta três sendo elas o animismo, magia e onipotência dos pensamentos.

 Tais observações fazem com que Freud facilmente articule uma ligação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia dos neuróticos, falando que ambas pouco divergem de alguns ritos sociais (costumes). Através do tabu, o autor reforça um dos principais conceitos de sua teoria, o Complexo de Édipo, afirmando que esses poderosos e antigos desejos reprimidos, matar o pai e cometer incesto, são tão verdadeiros que caso contrário não haveria a necessidade de uma lei tão severa que proibisse a transgressão. Indo além, as pulsões mais poderosas do aparelho psíquico (agressividade e sexualidade) são tão naturais ao ser humano que, para a civilização poder existir, é necessário uma lei que impossibilite e puna caso aconteça e é nesse ponto que Freud articula a força motivadora das neuroses; exemplo, quando os instintos (desejos) sexuais podem ser tão reprimidos ao ponto de serem a força impulsionadora da neurose. Aqui cabe uma ressalva, ao longo do livro por mais que o autor compare o tabu com a neurose ele distingue ambos, diz que a primeira seria uma instituição social e a segunda seria uma estrutura "associal" (as pulsões sexuais predominaria sobre as sociais).

 

Freud descreve o totemismo como sendo um sistema que seria a base de uma organização social presente em todas as culturas. O totemismo nada mais é que a relação social marcada pelo respeito e proteção entre os próprios integrantes do clã e o totem a partir de normas e costumes. Lembra que falávamos que o tabu protege o totem? Então, os tabus teriam finalidade outra de proteger os totens e qualquer violação teria como punição uma doença inexplicável, até mesmo a morte.

 

 "Eles brotam ali onde os mais primitivos e mais duradouros instintos humanos têm sua origem, no temor à ação dos poderes demoníacos [Wundt]", (Pag. 18).

 

Freud vai além em suas concepções e cita Westermack, quando aborda as relações do tabu com os mortos e o temor dos mesmos. Ele recorda sobre os mecanismos do psiquismo, a projeção, e mostra um deslocamento clássico do tabu: o temor dos mortos. "Não somos nós, os sobreviventes que nos alegramos por nos livrarmos do morto; não, nós o pranteamos, mas curiosamente ele se tornou um demônio ruim, que teria satisfação com nossa desgraça, que procurar nos causar a morte" (Pag. 61). Freud revela que nesses casos o sujeito apenas troca a opressão interna por uma externa. Tal projeção acontece devido a hostilidades reais que deles (os mortos) são lembradas e que LHES podem ser recriminadas.

 

"Todos os doentes obsessivos são supersticiosos dessa maneira (expectativa neurótica supersticiosa), em geral contrariando seu entendimento" (Pag. 86).

 

Com base na afirmação de que os desejos sexuais dividiriam os homens, Freud destaca a proibição do incesto porque diz que o mesmo precisou ser instituído: "Todos os irmãos desejariam todas as mulheres para si, desejavam assumir o lugar do pai".

 

Totem e Tabu é uma leitura essencial para quem deseja uma explicação mítica da formação da sociedade, restrições morais e ir além viajando pelos elementos constitutivos da religião. Acredito que o livro nos apresenta uma importante reflexão, que coloca a prova nossas concepções sociais, religiosas.

Ler 422 vezes Última modificação em Quarta, 22 Março 2017 15:27
Gabriel M.

Criador do Blog PsicoLógos, discente do Curso de Formação de Psicologo pela Universidade Paulista e um completo apaixonado pelos fenômenos humanos. Acredita na promoção da igualdade através da aceitação das diferenças que tanto nos tornam especiais.

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