Segunda, 02 Janeiro 2017 16:05

Considerações sobre a psicologia experimental de Wilhelm Wundt

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 Olá PsicoLeitores,

Hoje escreverei algumas considerações da psicologia experimental de Wundt ao longo de sua vida acadêmica, e a importância que ele tem até hoje. Caso queira saber os pormenores de Wilhelm Wundt, acesse o artigo Wilhelm Wundt o Pai da Psicologia Moderna.

 

Sou obrigado a dizer, com certo pesar, que são poucos os psicólogos que realmente estudam e entendem a teoria de Wundt no Brasil. Por certo, isso se da pelo fato de que as obras de Wilhelm Wundt são pouco exploradas pelas editoras e, por outra perspectiva, necessito levantar a ideia de que junto com a falta de interesse do editorado há um descaso por parte dos próprios psicólogos; não devemos culpa-los, até, porque, parte dessa culpa origina-se no seio acadêmico que ocupado com temas de maior relevância, pro contexto atual, acaba negligenciando aspectos importantes. Digo importantes pois acredito que, para entendermos o que a Psicologia é hoje, precisamos entender as grandes mentes por traz das teorias, o que as motivaram e como pensaram. Só assim, realmente, entenderemos a teoria em toda sua complexidade. Mas, admito que, ler as obras de Wundt não é nada fácil; com forte peso filosófico e com característica de pensamento (e escrita) dos acadêmicos alemães da época, tais obras são custosas de se entender e adaptar na nossa realidade brasileira. Atribuo isso a forma rebuscada com que ele escrevia, herança da tradição filosófica alemã que o precedeu.

Outro ponto importante é que o pensamento de Wilhelm Wundt foi abraçado pela filosofia, e não pela própria psicologia. Foi a filosofia que ocupou o lugar central do seu projeto intelectual. "Wundt foi acima de tudo um filósofo, cujo objetivo último era elaborar um sistema metafísico universal - uma visão de mundo - baseado nos resultados empíricos de todas as ciências particulares" (Araújo, 2009).

 

Aspectos da Teoria Wundtiana:

Como abordarei nesse artigo as críticas a teoria de Wundt, antes, quero desdobrar alguns pontos que Wundt criticou, na época, quando fundamentava sua teoria.

Nos é evidente que a psicologia de Wundt é pouco explorada - não ressalto isso com a pretensão de afirmar que deveríamos nos valer de seus métodos -, mesmo sendo muito apresentada nos livros introdutórios de história da psicologia. Para que possamos entender a proposta de Psicologia como uma ciência da experiência imediata de Wundt, temos que buscar em suas obras qual a teoria que ele atacou, quais críticas ele fez para preparar os bastidores de sua própria teoria.

"O objetivo da ciência natural consiste, no sentido mais geral, no conhecimento da realidade objetiva, isto é, dos objetos, cuja existência real deve ser pressuposta após a abstração das características que lhe foram atribuídas exclusivamente pela atividade subjetiva de representação" (Wundt, 1896, p. 24).

Continuando:

"A psicologia desfaz novamente esta abstração realizada pela ciência natural para poder investigar a experiência em sua realidade imediata. Ela fornece, portanto, informações sobre as interações dos fatores subjetivos e objetivos da experiência imediata e sobre o surgimento dos conteúdos particulares desta última, assim como de sua relação. A forma de conhecimento da psicologia é, pois, em contraposição à da ciência natural, imediata e intuitiva, na medida em que a própria realidade concreta, sem a utilização de conceitos auxiliares abstratos, é o substrato de suas explicações" (Wundt, 1896, p12).

Definindo a psicologia como ciência da experiência imediata, Wundt pretendia atacar uma ideia de psicologia (comum na época) que trava a mente como uma entidade ou substância, seja espiritual ou material. Para Wundt, claro, essa concepção de psicologia estaria errada pois baseava-se em hipóteses metafísicas. Como Ele queria estabelecer uma Psicologia independente, baseada na experiência, precisou descartar todas as concepções metafísicas.

 

"Uma auto-observação planejada, como é recomendada pela maioria dos psicólogos, é apenas uma fonte de autoilusões. Pois, como neste caso o sujeito que observa coincide com o objeto observado, é óbvio que o direcionamento da atenção para os fenômenos modifica os mesmos." (Wundt, 1883, p. 482).

 

 Notamos que Wundt fez a lição de casa e procurou separar a introspecção tradicional (auto-observação) e a percepção interna, sendo está última, para ele, a única forma metodológica confiável para a psicologia. Isso ressalto o que disse no começo desse artigo, até hoje as pessoas confundem Wundt como um defensor da introspecção clássica.

 O método de Introspecção de Wundt!

 

Críticas a psicologia de Wundt:

  • Quando a introspecção é realizada por vários observadores, como saber qual é a correta?
  • Se tratando de uma auto-observação, a introspecção é uma experiência particular.
  • A introspecção modifica a experiência psíquica, pois se só descrevemos a vivência depois dela ser vivida, quando a vamos descrever já os sentimentos e as emoções foram também vividos, nunca ficando uma descrição completa e precisa.

 Uma forte crítica que ele sofreu ao longo de sua vida (o que não o torna menos importante), é que o seu modelo metodológico não conseguia estudar comportamentos e processos mentais de animais, pessoas com distúrbios ou perturbações mentais. Nesses casos, a pessoa "estudada" não tem capacidade de ter uma real percepção interna de si e, por outro lado, o psicólogo nesses casos pode ser tendencioso. Muitos afirmavam que quando a introspecção é realizada por vários observadores, não há como saber qual é a correta. Os conhecimentos ou dados que a introspecção visa alcançar só podem ser comunicados pela linguagem e há experiências muito difíceis de exprimir verbalmente.

 

Podemos encontrar várias críticas sobre a teoria de Wundt, mas acredito que muitas delas se dão por falta de interpretação da própria teoria. Podemos encontrar, em suas obras, afirmações dele mesmo de que alguns métodos são passíveis de aprimoramento, sendo a percepção interna um deles. No quadro moderno e atual da psicologia, apenas atribui a Wundt os louros de ter tornado a psicologia independente. Sabemos que a teoria principal de Wundt tem fortes influências (se não diretas) de Fechner, o que sob nenhuma perspectiva tira os méritos sobre sua obra. Wundt nunca estabeleceu algo concreto de fato, o mesmo dizia que a psicologia estava em construção e criticava aplicações prematuras da psicologia.

Espero ter apresentado algumas considerações, sobre Wilhelm Wundt, que não podem fugir da nossa área. Tais considerações são importantes porque o pensamento de Wundt ajudou a moldar o pensamento contemporâneo, então não devemos atribuir o título de "Pai da Psicologia" apenas pela independência da psicologia, isso foi apenas o resultado de uma vasta obra que ele produziu e que ajudou futuros teóricos como Freud (ler Totem e Tabu, há citações) ou com o movimento da Gestalt (que ia contra as ideias de Wundt).

 

Referências:

Araújo, Saulo de Freita. Uma visão panorâmica da psicologia científica de Wilhelm Wundt. Scielo: São Paulo, 2009.

Wundt, W. Logik. Eine Untersuchung der Principien der Erkenntniss und der Methoden wissenschaftlicher Forschung. Stuttgart: Enke, 1883.

Wundt, W. Uber die Definition der Psychologie. Philosophische Studien, 12, p. 307-408, 1896.

Ler 269 vezes Última modificação em Quarta, 18 Janeiro 2017 15:29
Gabriel M.

Criador do Blog PsicoLógos, discente do Curso de Formação de Psicologo pela Universidade Paulista e um completo apaixonado pelos fenômenos humanos. Acredita na promoção da igualdade através da aceitação das diferenças que tanto nos tornam especiais.

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